Praia de São Conrado

Crédito: Luciana Palma

Crédito: Luciana Palma

 

 

 

Para o deleite de quem frequenta o blog, eis uma foto da Praia de São Conrado, onde dei a minha corridinha no sábado. Enjoy!!

 

 

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Olhar 43 – Quinto capítulo

As manchas arroxeadas estavam se formando. Parecia agora, umas oito horas após o fim da cirurgia, que eu tinha acabado de levar um soco. O mais incrível é que, mesmo com todo esse estrago, eu já via uma diferença rejuvenescedora. Eu parecia mais jovem, juro! Uma jovem agredida, mas sem dúvida, melhor. Uma alegriazinha me confortou. Até aqui, tudo bem, vamos em frente.

Me recostei no sofá, e Adriane me ajudou com as compressas geladas. Ficava com a gaze e uma luvinha murcha cheia de água gelada por cima até que a água esquentasse ou que eu mesma ficasse incomodada. Tirava um pouquinho e colocava novamente. Fiz isso por umas duas horas, mas estava com um soninho tão bom… Dava preguiça. Fora a preguiça um pouquinho exagerada, que acho que foi por conta da anestesia, o resto estava normal. Tive fome, fui ao banheiro, conversei, tudo muito normal mesmo.

Nesse momento só pensava em como estaria no dia seguinte. Troquei de posição duas vezes durante a noite. Quando amanheceu, já estava com o espelho na mão novamente.

Não tinha muitas novidades no segundo dia, mas havia uma mancha mais avermelhada na pálpebra inferior. Como se o sangue liberado em cima houvesse descido e ficasse represado por uma rede interna e invisível, não se espalhando pelo rosto todo. Formou-se uma olheira vermelha, é o melhor jeito de explicar. Nesta parte inferior, eu não vejo muita diferença não. Parece que as bolsinhas ainda estão ali…

Nos dias seguintes, terceiro e quarto pósoperatórios, não houve muitas mudanças. Achei que fosse ficar curtindo a programação do canal a cabo, que colocaria os filmes que quero ver e nunca vejo, mas ficou tudo tão normal que até me decepcionei. Me senti tão bem que me deu foi saudade de ir para o trabalho. Pena que a maquiagem não conseguia esconder tudo ainda, e também tinha aquele micropore colado. Aliás, ele estava cada dia mais nojento. A cola ficou amolecida, o sangue que passou por ele ficou escuro e seco. Ainda bem que a consulta de revisão seria no dia seguinte. Apesar de um pouquinho de medo de retirar os pontos, queria dar logo esse outro passo gigante em direção à minha completa recuperação.

Que saudades eu sentia de estar ao ar livre, saudades do sol, de não ter restrição. Incomodava isso de ficar sem poder me esconder da claridade. Fui orientada de que o sangue que fica fora do lugar dele, que é dentro dos vasos (artérias, veias, capilares), está sujeito a se fixar na pele e manchá-la por um período longo caso receba raios UV  do sol, ou iluminação, mesmo artificial, muito forte. Por isso, usei meus óculos escuros até quando ia conferir meus e-mails, duas vezes por dia.

No dia seguinte ao da cirurgia já dispensei Adriane e Santinha. Estou tão acostumada a ficar sozinha em casa que, sinceramente, quando vi que não precisava delas, as fiz entender que já podiam ir para suas casas. Como me conhecem bem, nem precisei ser muito clara.

Fui para o consultório da médica de táxi, cheguei dez minutos mais cedo e aguardei na recepção por dez minutos. Era dia de revisão, a secretária me explicou. Qualquer um que não soubesse poderia achar que era uma reunião dos mortos-vivos. Uns de olhos roxos, outros com a cara enfaixada, alguns andando devagar carregando um suporte de plástico cheio de sangue. Mas todos felizes, um olhar de cumplicidade e comparação. Se pudéssemos, formaríamos um fã-clube.

Meu atendimento foi rápido e eficiente. Deitei na maca, e a doutora suavemente tirou o micropore, puxando de dentro para fora. A seco. Incomodou um pouco, mais pelo medo do que propriamente pela dor. Perguntei porque ela não molhava com alguma coisa antes de tirar, e ela me explicou que o micropore, quando molha, se desmancha. Aí, sim, fica difícil de tirar. Então ela puxou as linhazinhas pretas, e eu senti elas saírem da pele, correndo abaixo da cicatriz. Não doeu nada.

Para tirar os pontos da pálpebra inferior só foi mais difícil porque ela me pediu para ficar um pouquinho com o olho aberto, já que, com os olhos fechados era difícil diferenciar os cílios com o fio, muito fininho. Tudo o que eu não queria era ver aquela pinça e a tesourinha, mas me controlei como sempre. Foi simples, tirando isso. A mesma sensação da cobrinha passando embaixo da pele. Fiquei esperando ela limpar a sujeirinha de sangue que eu via por baixo do micropore, mas quando ela me deu um espelho para olhar como tinha ficado, estava tudo tão limpinho… Todas as crostinhas tinham saído junto com o micropore. A única surpresa foi uma lágrima escorrendo pela lateral, como um quadro de criança chorando que vi numa casa de uma empregada lá de casa, quando era criança. Por que alguém coloca um quadro de um rosto lindo de criança chorando na sala eu não entendia, mas o que me deixava mais curiosa era que a lágrima não escorria pelo meio, perto do nariz, mas na lateral, como um lago que transborda por um lado inesperado. Era porque havia ainda um edema da pálpebra inferior, a doutora me explicou. Já, já, voltaria a chorar como antes.

Várias perguntas:

Posso dirigir? Sim, normal.

Posso caminhar à noite na rua ou na academia? De óculos (quem quer caminhar pagando esse mico?).

Posso trabalhar? Sim.

Posso passar um corretivo em cima das áreas ainda manchadas? Sim.

Posso começar a fazer a drenagem linfática com a Santinha três vezes por semana? Sim.

Não posso:

Pegar peso.

Esfregar o olho, embora seja normal sentir uma coceirinha por conta da cola do micropore, que causa certa intolerância à pele sensível e por causa do sangue extravasado.

Fazer nada que provoque um aumento da vascularização da cabeça. Hein, como vou saber isso? Abaixar a cabeça, forçar o pescoço, fazer força para evacuar, ficar com raiva e gritar. Agora sim, entendi. Vou tentar prevenir essas situações.

Me expor ao sol ou a claridade excessiva até saírem as manchas, em torno de quinze dias. Mas tem pacientes que são mais resistentes à absorção do hematoma e ficam com roxidão por até um mês.

Quanto à cicatriz, assim que ela tirou o micropore e os pontos, eu quase nem a enxergava.

Já tinha lido que há dois lugares no corpo humano em que não ocorre quelóide, mesmo nas pessoas com maior tendência. Esses dois lugares são as pálpebras e a bolsa escrotal. A cicatriz só fica visível nas pessoas que têm tendência a ficar com a cicatriz branquinha, mas mesmo assim durante um tempo somente. Mas isso eu já havia colocado na balança dos riscos, e me livrar daquele pedaço de pele pesava muito mais antes e pesa ainda muito mais, porque está tão bom sem ele…

No mais, revisão em quinze dias e esperar o edema sumir, as manchas serem absorvidas e eu conseguir ver todo o resultado, o que vai levar pelo menos três meses para chegar aos 95%.

Socialmente, isto é, para que eu possa ir à rua sem assustar ninguém e só quem vai notar são as pessoas que me conhecem, acho que leva de dez a 15 dias.

Cheguei da revisão animada, feliz por estar tudo dando certo. Não falei nada para a médica, mas duas pequenas coisas já me satisfazem agora. Não ter complicado nada (meu olho fecha quando eu durmo!!!), poder colocar minha sombra, meu rímel, meu delineador sem borrar tudo (já dá para ver bem que será uma conquista em muito breve). O que vier é lucro – sem bolsas, sem cicatrizes, já estou achando tudo bom. Uma coisa boa também é que não está escancarado que eu operei. Ainda ficaram umas ruguinhas, minha sobrancelha é baixa mesmo, não fiquei com o olho arregalado. Enfim, sou eu mesma, só que sem uma pelinha desnecessária sobre o olho. Não rejuvenesci, fiquei mais feliz, e esses conceitos de juventude e felicidade podem se confundir.

Voltei ao trabalho depois de tirar os pontos. Notava uma curiosidade das pessoas, todo mundo queria saber como ficou. Há uma imagem de que a cirurgia plástica na face nos transforma em celebridades totalmente deformadas. Ninguém associa a cirurgia plástica com os excelentes resultados, porque esses nem são percebidos. Tinha gente que dizia um “nem parece” quase decepcionado por não ter deformidade a comentar. Mal sabiam que isso era tudo o que eu queria ouvir. Meu espelho já me dizia a diferença que fez, não precisava de ninguém para isso.

Nas primeiras semanas acordava apreensiva sobre a imagem que encontraria refletida no banheiro. Com o tempo fui perdendo esta ansiedade. Um dia acordei e esqueci que tinha operado. Olhei para meu rosto e me achei mais bonita. Sabe aquela fração de segundo que te dá uma consciência? Daí eu lembrei que já não tinha aquele monte de pele, aquela almofadinha embaixo do olho…

Fiquei torcendo para chegar logo um convite de programa social para eu estrear minha cara nova. Renovei meu estoque de maquiagens e, de quebra, comprei dois pares de óculos de sol, coincidentemente  com as lentes mais claras que tinham na loja. O Armani já estava devidamente sepultado no meu closet. Para sempre é desnecessário com esse verbo, não é? Um vestidinho novo para combinar também estava na lista, mas aprendi que roupa de festa não se estoca. Pode estar uma pechincha, mas só compre se você tiver a festa na agenda. Roupa de festa guardada no armário, mesmo se for estrear uma novinha, não a deixa tão entusiasmada quanto sair e comprar uma roupa para aquele casamento ou aquela festa. Claro que há exceções, mas comprar o vestido já é parte da festa.

Pois bem, antes de eu operar tinha mil coisas para fazer à noite, agora nada. Ou será que eu é que fiquei ansiosa? Depois de uns dias, finalmente chegou um convite. Tomara que seja alguma coisa interessante, porque eu iria de qualquer jeito. E era. Um pessoal superanimado do marketing organizou uma festa em plena quinta-feira. A festa era em comemoração ao sucesso da agência, que tinha fechado não sei quantos contratos. Um lugar superlegal, com DJ conhecido por colocar todo mundo para dançar e comida da melhor qualidade. Adriane também iria e se ofereceu para me pegar.

Comprei um vestido lindo de morrer, que combinava com o astral do lugar. Nada de pretinho básico, nada de nude romântico. Comprei um vestido estampado de desenhos geométricos coloridos em tons discretos, mas muito diversos. Se fosse dar um nome para o vestido, diria que se chamava: coloridinho sem compromisso. E se o vestido não tinha compromisso em se definir, por que eu teria?

Sou só uma mulher de 43 anos que contou um pedacinho da sua vida num momento especial. Transformei um desejo em realização. Decidi que queria mudar um pouco minha aparência, melhorar o aspecto dos meus olhos. Realizei.

No espelho do banheiro, a festa para mim já tinha começado. A maquiagem ficou linda. Assisti a um tutorial no YouTube e consegui copiar tudo!!! E o tutorial foi feito por uma menina de 22 anos!!!

Depois de maquiada, me vesti, prendi o cabelo, porque não era ele a ser elogiado hoje. Nada de molduras nesta obra-prima. Um saltão, e pronto. Só esperar Adriane, aquela atrasada. Tomara que ela não tenha descoberto que a festa seria um pouco mais tarde do que no horário que eu havia dito a ela. E tomara que ela se atrase mesmo, senão vamos ter que dar umas voltas por para não sermos nós a abrirmos o salão.

Ela se atrasou só 50 minutos, uma maravilha!

Saí de casa, bati a porta e chamei os dois elevadores, automaticamente e ecologicamente incorreta, eu sei. Chegou o elevador da garagem, aquele que não tem espelho. O outro, com espelho, estava subindo. Melhor esperar. Bateu uma certa angústia, um medo de estar tudo borrado como no dia do meu aniversário. A luz automática do corredor do prédio se apagou, e só ficaram os dois retângulos iluminados da janela de vidro dos elevadores, como lanternas chinesas numa celebração. Com aqueles cálculos rapidíssimos que nosso cérebro faz sem perceber, dessa vez o incômodo de descer dois lances de escada foi bem maior do que minha necessidade de conferir a maquiagem. Abri feliz a porta do elevador de serviço e desci até a garagem, onde Adriane já estava bem na porta, com o carro estacionado.

A festa foi sensacional, com tudo de bom! Me diverti muito. Comi, bebi, dancei e só percebi que estava acabando quando olhei ao meu redor e só tinha eu dançando. Se eu estiver me sentindo bem, da cabeça e do pé, danço até o final, adoro. Não ligo para a fama de maluca ou drogada. São só palavras… Não uso drogas nem sou maluca. Apenas descobri que dançar bastante me deixa feliz, ou mais feliz, como hoje.

Adriane estava sentada de papo com o garoto que ajuda o DJ a carregar o equipamento. Era um gatinho mesmo, mas parecia amigo do Thiago, meu sobrinho de 18 anos.

Tinha apenas três horas de sono até o despertador tocar às 6 horas. Na sexta tinha uma reunião importante às 9 horas, e precisava estar bem. Nada de pânico.

Cheguei em casa, tomei um banho, retirei a maquiagem, que estava perfeita. Dormi rápido e já tinha deixado arrumada a roupa que vestiria na sexta, dia informal na empresa. Fico com tanto medo de atrasar quando estou muito cansada que geralmente chego cedo.

Foi o que aconteceu. Quando cheguei ao estacionamento, pra variar a catraca estava com funcionamento manual, como sempre o bonitão da segurança no controle. Abri o vidro e mostrei minha credencial para ele. Recebi um sorriso, um bom dia e uma pergunta: está cansada? Meu Deus, isso de novo. Tudo bem que eu estava mesmo, dormi pouco, etc., foi por uma boa causa, me diverti muito, pessoas ficam com cara de cansadas, tudo isso passou pela minha cabeça.

Só mesmo muito cansaço para não notar isso aqui preso no outro lado do para-brisas, vou tirar para a senhora. Morri de vergonha. Tinha uma folha de papel dourado, que lembrei ser o envelope do convite da festa, com uma frase escrita: você é linda! Conheci a letra, sorri por dentro e por fora. Hoje tem outra festa.

Olhar 43: quarto capítulo

Crédito: Image courtesy of photostock at FreeDigitalPhotos.net

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Próximo enterro: aqui jazem uns óculos Armani, enormes e de lentes muito escuras, usados para esconder meus olhos empapuçados quando eu estava com preguiça de me maquiar. Só vou usá-los para sair do hospital e enquanto meus olhos estiverem roxos, ou seja, por mais três meses. Foi o tempo que a Dra. Andrea (idem) me deu para sumir tudo, inchaço e roxo. Se eu fizer a drenagem linfática então, tende a desaparecer mais rápido ainda.

Drenagem linfática, nome bonito, não é? Sempre achei que era frescura. Na primeira vez que fiz para melhorar um inchaço na perna que não saiu sozinho depois de três dias de ter chegado de uma viagem longa, aproveitei para dormir um pouco. No início da drenagem tive a sensação de estar sendo enganada, mas estava tão cansada que aproveitei para dormir naquele lençol limpo e deixar para reclamar ou trocar de profissional depois. A massoterapeuta, que nesse caso tinha curso superior e experiência, carinho e cuidado com as pacientes, parecia que estava fazendo carinho em mim, e não massagem. Só não aprendeu, como muitos profissionais, a explicar como e por que faria a drenagem daquele jeito, tão de levinho. Perguntei se era assim mesmo, aí ela fez o favor de me explicar. Minha perna ficou boa, e eu fiquei fã dela. Toda semana estava no seu cafofo, como ela chamava o quartinho em que atendia. Santinha, seu nome. O melhor é que era no meu prédio mesmo. Santinha foi empregada doméstica de uma família por muitos anos. Veio do Nordeste ainda menina e ficou nessa casa todo o tempo. Depois que os patrões morreram e seus filhos emprestados se mudaram para o exterior, eles fingem que precisam dela tomando conta desse apartamento que mantêm para quando vêm ao Brasil. Mas até ela sabe que não é bem verdade. Seus parentes do Nordeste também já morreram, e ela não tem mais condições de morar neste bairro nobre. Sua casinha fica na periferia, e com o aluguel ela paga o plano de saúde. O menino mantém as despesas do apartamento, e ela complementa a renda com as drenagens linfáticas. Já gostava de massagear a turma da casa. Adorava quando D. Luísa trazia uns cremes do exterior, com um cheiro maravilhoso, e entregava em suas mãos para massageá-la nas pernas, costas. Sentia como se as mãos dela é que estivessem sendo massageadas. Para quem só lidou com sabão de coco, nos dias bons, poder lidar com aquele creme era bom demais… Fez um curso e descobriu que o que fazia era quase aquilo que ensinavam.

Finalmente chegou o dia. Tinha pesadelos pensando que a cirurgia poderia ser adiada. Na verdade não sabia se o medo era esse mesmo. Tinha uns pensamentos absurdos, como: um tsunami acabar com a clínica, a médica enlouquecer e não comparecer, faltar luz na cidade, ser assaltada e levarem os seus exames. Que ideia maluca. Que ideia maluca eu operar! Ah! Mas vai ficar tão bom!!!

A internação foi muito tranquila. Uma vez acompanhei uma amiga que ia operar uma hérnia umbilical, e a internação foi muito confusa e angustiante. Tinha que pegar senha, confirmar senha pela internet, o sistema estava lento, não havia quartos disponíveis, tudo isso porque usamos o plano de saúde top. A partir desse dia descobri que qualificação de plano de saúde já começava enganosa pelo nome. O nível mais fuleiro de plano já se chamava especial. O nosso, da empresa, era top. Não existia plano básico. O básico se chamava especial.

Mas, no meu caso, em que tudo era particular, a burocracia não entrava. Em cinco minutos preenchi uma ficha de internação e uma mocinha simpática me acompanhou até o meu quarto. A televisão era maior que a minha, o quarto era maior que o meu, só não tinha janela nem vista, como eu gosto. Pedir demais? Tinha um aparelho diferente na mesa de cabeceira e um suporte para pendurar soro, além de a cama ser cama de hospital. Se eu fosse criança, iria adorar! Uma cama que mexe com um controle só para mim. Testei a TV e olhei para o sofá, onde tinha um pacote de plástico com um avental de papel, uma touca, sabonete, toalha.

A enfermeira veio, me entrevistou e mediu a pressão, veio um médico do plantão da clínica, o anestesiologista e finalmente minha doutora. Tiramos as fotos do antes, e ela me disse para trocar minha roupa pelo avental de papel. Tinha que tirar tudo: brincos, colar, roupas, soutien,  calcinha. O que tem a ver minha calcinha com meus olhos? Ela me explicou que algumas calcinhas têm um elástico que pode ter interferência no bisturi elétrico, e que por isso era recomendado que se retirasse tudo. Não me convenceu muito não, mas obedeci. Muita exposição isso de ficar pelada para operar os olhos. Mas nessa hora estava ali para obedecer, melhor nem questionar.

Mandei um torpedo para Adriane vir ficar comigo, ela sairia mais cedo da loja para estar comigo já na hora do almoço. Felizmente ela respondeu. Torpedos existem para serem respondidos, tá? Quem é que não pensa que o torpedo tomou outro rumo ou nem saiu do navio quando manda um SMS e não recebe nem um econômico OK? Sei que existem pacotes que limitam o número de torpedos, mas dá um conforto quando a gente recebe de volta um OK… Adriane sabia disso e tinha esse hábito. Hoje, o OK foi acompanhado de um “boa sorte” que escondia um “tem certeza? Não quer ir embora agora e gastar esse dinheiro em outra coisa? Se algo der errado, não te pouparei do eu não te disse???”…

É bom ter alguém para dividirmos nossos medos… é mais fácil eu botar na conta dela, que me desejou um simples boa sorte, uma infinidade de indiretas que vieram da minha própria mente.

O dia estava lindo. Não era uma época de calorão, mas a temperatura estava elevada. Achei bom, porque essa história (não se faz mais a distinção; usa-se história em qualquer sentido) de colocar gelo no rosto ia ser melhor se eu também me refrescasse. Pensei muito nisso quando escolhi a data da cirurgia. Sempre havia ouvido falar que a época boa para fazer cirurgias plásticas era no inverno.

No Rio de Janeiro há mesmo inverno???

Não podemos ligar o ar condicionado???

O que os cirurgiões plásticos fariam no verão?

Quando perguntei sobre isso para Dra. Andréa, ela me disse que a melhor época para operar era a época em que o paciente tinha mais tempo para se dedicar à recuperação. Não importa se verão ou inverno. Faz sentido. Não adianta estar em pleno inverno e ter uma viagem inadiável dois dias depois. É melhor estar em um janeiro escaldante e ter um ar condicionado recém-vistoriado capaz de refrigerar a casa toda. Posso sair à noite, quando é mais fresco e não tem a claridade. Fácil quando a gente quer.

O anestesista me perguntou se eu estava nervosa e me ofereceu (percebi assim) um comprimido para dormir e não ver nada até chegar ao centro cirúrgico.  Neguei, gosto de estar no controle, perceber coisas e pessoas, confirmar que estou em boas mãos, e só queria dormir quando estivesse prestes a ser operada.

Ir para o centro cirúrgico deitada na maca, olhando o teto, fazendo curvas guiada por um maqueiro, sacolejando como compras do supermercado num carrinho ou como um corpo desacordado naquela caixa de madeira, é uma experiência no mínimo estranha. Por um lado meu desejo enorme, racional e consciente. Uma oportunidade conquistada de poder fazer algo por mim, para que eu me sentisse melhor. Por outro lado uma sensação como a de quem sobe nos trilhos de uma montanha russa. Que desejo é esse? Iria demorar para saber…

Quando cheguei à sala de cirurgia, até que não senti frio. Tremia era de um nervosinho, uma sensação estranha de estar ali tão desprotegida. Tomei um cuidado enorme para passar da maca para a mesa estreita, cuidando para que nem um pouquinho da minha bunda ficasse exposta, como se fossem preocupar com isso.

Imediatamente Dra. Andréa  veio falar comigo, numa alegria normal, corriqueira, habitual.  A normalidade me transmitiu segurança.

O anestesista disse que ia ‘pegar minha veia’, e imediatamente começou a correr um soro dentro de mim. Ele disse que eu iria dormir um pouco, e foi isso que aconteceu. Lembro-me vagamente de uns avisos sobre doer um pouquinho, ficar quietinha que já estava acabando. Mas, como o medo tinha ido embora totalmente, só ficou a sensação boa de estar sendo cuidada, corrigida no que eu não gostava, sem dor, com muita expectativa de sucesso.

Acordei e já estava no quarto, num soninho bom… Recostada, com uma compressinha de gelo nos olhos, completamente sem dor.

Abri os olhos para confirmar que estava enxergando tudo e todos, tão bem como antes, e estava tudo OK.

Os olhos meio pesados, mas só isso.

Adriane estava lá, sorrindo para mim, mas como um cão de guarda para os outros: enfermeiras, médicos, copeiras, qualquer um que entrasse ali poderia ser alvo de sua preocupação de que algo não saísse bem. Como se descontasse neles a minha irresponsabilidade de mexer com o que estava quieto. Ouviu as recomendações, perguntou as mesmas coisas para pessoas diferentes, só para se certificar de que falavam a mesma língua e que tinham as mesmas opiniões.

De repente me deu uma fome… lembrei-me do jejum, de quando tinha comido pela última vez, e a fome, que havia começado com uma sensação ruim no estômago, passou para uma sensação na cabeça. Coincidentemente (o hospital não poderia ter adivinhado), entrou a copeira com uma comidinha deliciosa. Rapidinho pude comer, beber, e isso me fez sentir revigorada. Quase com vontade de ir embora.

Umas duas horas depois disso e algumas cochiladas, entrou uma médica plantonista e me disse o que eu já sabia e queria: poderia ir para casa quando quisesse. A enfermeira tirou o soro, trocou a compressa dos olhos por uma limpinha e ainda mais gelada e disse que eu poderia me arrumar para ir embora.

Adriane até que me surpreendeu. Quando teve certeza de que estava tudo bem comigo, relaxou, ficou amiga de todo mundo e se apaixonou pelo manobrista, que fez as vezes de mensageiro e trouxe da recepção umas flores que mandaram me entregar. Pelo cartão, já sabia quem seria. E adorei. Quando ela me disse que tinha achado o manobrista um gato, eu já sabia do resto. Tinha trocado olhares com ele, dado uma indireta-direta, e talvez uma troca de telefones tenha rolado. Não vou julgar. Numa conversa que tive com ela tentando entender esse comportamento, ela me fez cair no meu próprio preconceito. O que ela queria dos homens era o que pessoas que acreditamos não tão bem sucedidas financeiramente tinham de sobra para oferecer a ela. Ponto final. Boca calada, não falo mais nada.

Estava enxergando muito bem, mas preferi a surpresa do novo olho para o espelho de casa. Da clínica eu teria que sair mesmo, um trecho de exposição inevitável. Mas, em casa, eu poderia ficar para sempre caso não me acostumasse ou não gostasse da nova cara.

Coloquei a mesma roupa que usei para vir para o hospital e tirei meus óculos da bolsa. Aí, sim, tirei uma foto com o celular para conferir se estava tudo escondido. E estava. Meu rosto estava um pouco inchado, acredito que pelas horinhas de sono forçadas pela anestesia, mas esses óculos eram perfeitos.

Pedi à enfermeira um pouco de gelo ou compressa gelada para ir usando no carro, e ela me trouxe umas luvinhas cheias de gelo. Fiquei imaginando o congelador onde isso foi preparado, um monte de mãozinhas cheias de água, endurecendo em diferentes formas, um freezer assustador! Mas adorei a ideia! As luvas com água bem geladinha se moldam no côncavo dos olhos, não apertam. Tudo bem que existem as de plástico grosso recheadas com um líquido que não congela, mas as luvinhas são tão baratinhas, e descartáveis, que achei uma ótima pedida para quando eu fizer outra blefaroplastia, na próxima encarnação.

A volta para casa foi mais tranquila do que eu imaginava. Demoramos só quarenta minutos. Ainda estava claro quando chegamos, ainda bem, como explicaria aqueles óculos para o porteiro fofoqueiro se já estivesse escuro? Se bem que eu acho que ele nem se importa muito comigo. Aliás, ele não se importa muito com ninguém. Tem tanto problema que o assunto do prédio não são os moradores, mas o porteiro. Ele tem mulher, namorada, outra namorada, tudo discutido e acertado portão afora, mas nada escondido ou disfarçado. Todo mundo sabe o que se passa com ele. Quando está doente, coloca os remédios, que são de 12 em 12 horas, em cima da mesa, encostado na parede, para que todo mundo saiba. A mãe dele nunca prestou, segundo ele mesmo. Fazia faxina no hall de entrada do prédio ainda muito jovem. Quando engravidou dele, não sabia quem era o pai. Fortes suspeitas recaíram sobre o bonitão do quinto andar que tinha comprado o apartamento ainda na planta, hoje um senhor respeitável, mas que trata bem demais esse porteiro.

Quando cheguei à garagem com Adriane dirigindo e eu na carona, com meus óculos moribundos, o porteiro estava distraído com uma encomenda enorme que estava recebendo. Vinha num saco plástico preto, e ele era muito curioso. O entregador, funcionário terceirizado, não queria perder tempo e entregou, junto com a caixa grande, duas folhas para serem assinadas no rodapé. Assinar, carregar e discretamente descobrir o conteúdo foi demais para sua habilidade investigativa, e ele nem notou que era Adriane quem dirigia meu carro. Concentrou-se na encomenda a ser entregue para o estrangeiro, que era como chamava Juan, o sujeito calvo vizinho da Santinha. Detestava quando a embalagem era caixa, porque não tinha nenhuma pista do conteúdo. Desistiu de sacudir as caixas depois do dia em que se excedeu no movimento para cima e para baixo de uma caixa e ouviu o barulho de vidro quebrado. Nesse dia ele olhou para os lados procurando testemunhas do seu gesto e, como não encontrou, imediatamente passou a carregar a caixa embrulhada no plástico preto como se soubesse que ali havia um jogo de taças de cristal caro e frágil. Ou como se fosse o porteiro mais cuidadoso do mundo. Já estava em cena o teatro de não saber de nada, de ter recebido assim, e a frase – o senhor sabe como sou cuidadoso.

Quando abri a porta de casa, agradeci a mim mesma ser tão organizada. O sofá da sala já estava arrumado para me receber. Troquei a roupa, coloquei meu pijama preferido e fui para a sala. Nesse trajeto tinha um espelho na parede, enorme, que fazia aquele corredor estreito parecer mais largo. Talvez tenha sido esse espelho que me encorajou a comprar uma poltrona enorme para o quarto, onde eu planejava fazer um cantinho de leitura superaconchegante, e eu ficaria estimulada a ler todos os livros que havia comprado e não tinha lido ainda. Culpa do espelho eu não ter lido os livros, uma vez que a poltrona não passou pelo corredor nem desmontada. Como na sala não cabia mesmo, troquei por uma estante nova. Mas o espelho não foi considerado culpado só por isso. Desde o momento em que decidi encarar-me, depois da cirurgia, e o encontrei no corredor, ele também passou a ser culpado de um enorme arrependimento, uma crise de choro iminente e consequentemente um autocontrole que tive que buscar nos primórdios da formação da minha personalidade. Sempre tinha ouvido falar que conseguiram que eu não usasse mais fralda desde que fiz um ano. Se tinha habilidade precoce em segurar o xixi e o cocô, o mesmo não valia para as lágrimas. Manteiga derretida, era o que eu sempre fui. Mas nesse caso não se trata de emoção, mas de razão. Não posso chorar, não posso chorar, não posso chorar. Eu que quis, eu que escolhi, já sabia que seria assim. Recobrei minhas forças racionais e, depois de três minutos sentada no sofá pensando, isto é, me controlando, decidi pegar o espelho que já havia deixado na mesinha de canto, perto do sofá. Eu já sabia que ia querer ver tudo, acompanhar tudo.

Pois então, lá estava eu como um monstrinho dos olhos ensanguentados. Conseguia ver tudo perfeitamente, só era mais difícil abrir os olhos, que estavam pesados. Tinha também uma tirinha bem fininha de micropore colada sobre toda a incisão, e eu tinha certeza de que isso também atrapalhava eu abrir os olhos. Como tinha lido, o corte deveria ser feito onde os olhos dobram, para imitar o sulco palpebral. Se a tirinha de micropore cobre essa linha do corte, o sulco não se forma e a excursão  da pálpebra fica prejudicada. Mas não podia tirar essa fita olante de jeito algum, segundo as orientações da doutora. Isso não precisava nem falar. Eu que não ia mexer nisso mesmo. Deste micropore saíam uns fiozinhos pretos por baixo dele, que acredito que sejam os pontos. A Dra. Andréa me explicou que costumava costurar a pele da pálpebra superior com um tipo de sutura intradérmica, mas que era preferência dela. Alguns cirurgiões preferiam a sutura externa, por chuleio ou pontinhos separados.

A pálpebra inferior estava mais inchada, eu acho. Os pontos já eram visíveis, o corte também. Impossível colar um micropore ali porque a incisão era tão próxima da linha dos cílios que não havia espaço mesmo para uma tirinha fininha como aquela. O corte saía um pouquinho para fora, e nesta parte lateral tinha um quadradinho de micropore que cobria dois pontinhos simples, eu acho. Deste corte minava, em alguns lugares, uma água de carne. Não era sangue vivo. Assim como do micropore que cobria o corte da pálpebra superior. Pelo nome do esparadrapo – micropore –, imaginei que seria essa mesmo a especialidade dele, ter pequenos poros para permitir que o sangue extravasasse. Essa água suja de sangue era o que sujava a gaze que colocava embaixo da compressa gelada. Não tinha pinga-pinga de sangue, mas também a gaze nunca saía branquinha. Sempre tinha uma sujeirinha avermelhada.

Boas-vindas!

Nesse blog, você vai ler contos fictícios de Cirurgia Plástica que eu, Luciana Palma, escrevi. Espero que gostem e interajam. Nessa semana, publicarei em pílulas, o conto Olhar 43!  Todos os dias, um capítulo novo em forma de post! Espero que gostem e compartilhem com os amigos!

Sejam todos bem-vindos!!

Grande abraço,

Luciana Palma.

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