Olhar 43 – Terceiro capítulo

Crédito: Image courtesy of marin at FreeDigitalPhotos.net

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Meu arrependimento também veio do alerta, apavorado, das que me pediram referência da nova loja de depilação. Quando eu disse que lá era tudo limpinho, agradável e ainda por cima fiz depilação na sobrancelha de graça, quase me mataram… Disseram que retirar os pelos da sobrancelha com cera quente uma vez por mês faria a pele da pálpebra ficar mais flácida. Desconfiei, como sempre desconfio das verdades sem sentido. Essa pergunta havia sido anotada no meu celular, por último. Talvez nem perguntasse nada sobre essa lenda urbana.

A cirurgia proposta para mim seria uma blefaroplastia superior e inferior. Tem gente que não precisa ou não quer operar a pálpebra inferior. Só se incomoda com a de cima. Eu não, quero fazer tudo que precisa para ficar sem esses olhos cansados. Mas também não quero ficar como certas celebridades, com os olhos repuxados para trás ou com aqueles olhos redondinhos que a gente logo vê que foram operados. No meu caso, além da pele sobrar na pálpebra, já tem um leve envelhecimento do terço superior da face, isto é, minha testa já desceu um pouco. Isso ela já me explicou que não muda com a cirurgia. A posição da sobrancelha fica a mesma. Nada de esperar mudanças que vão além da área dos olhos. Ah, como eu queria ter aquela cara de Odete Roitman!!! Já reparou que tem gente que vai envelhecendo e ficando arregalado? Acho chic

Vão sair umas bolsinhas de gordura da pálpebra superior e inferior após um fuso de pele  ser retirado. Na pálpebra inferior um fusinho de pele ainda mais fino será retirado. Esse corte é feito bem junto da linha dos cílios. Achava que tinha muita pele sobrando, porque quando eu sorrio muitas ruguinhas se formam, mas não é o caso. A retirada de pele demais da pálpebra inferior deixa o olho com um aspecto feio, repuxado, e ainda altera o seu funcionamento. Quando esta parte mais durinha da pálpebra (chamada tarso) deixa de estar em contato com a parte branca do olho (chamada esclera), todo o equilíbrio entre o que é liberado pela glândula lacrimal para lubrificar e o que é retirado como excesso por este furinho pequenino que temos na pálpebra inferior, perto do nariz, chamado ponto lacrimal, se desfaz. Então, chego à conclusão de que retirar um pouco menos de pele, mesmo arriscando a ficar ainda uma sobrinha, é melhor que tentar esticar muito, porque podemos ter outros problemas além da aparência desagradável. Aquele velho ditado: o ótimo é inimigo do bom. Que bom que a doutora pensa assim. Combina comigo.

Vou precisar ficar no hospital umas quatro horas. Apesar de a cirurgia ser feita com anestesia local, um médico anestesista vai também me manter com soro e fazer umas medicações pela veia (analgésico, antibiótico, talvez um sedativo). Só por curiosidade, perguntei se a cirurgia não poderia ser feita no consultório. Penso que esse negócio de implante dentário é muito mais perigoso e invasivo que operar os olhos, embora sejam estruturas totalmente diferentes. Ela disse que sim, que até poderia, mas ali no prédio onde ela trabalhava as salas eram muito pequenas, e não houve jeito do arquiteto projetar uma salinha para ela esterilizar o material, como mandam as regras da vigilância sanitária. Achei foi bom. Detesto sangue, fico nervosa mesmo com essas coisas. Saber disso tudo já excede os meus limites, imagina ver ou ouvir ao vivo. Prefiro dormir.

A cirurgia em si demora de uma a duas horas. A equipe cirúrgica pode ser mais rápida ou menos rápida, e meu olho tem que colaborar e sangrar pouquinho enquanto a cirurgiã e seus assistentes estiverem trabalhando.

Vou precisar fazer uns exames de sangue, apesar de ter tudo fresquinho do periódico da empresa. O periódico até pede muito mais coisa que o necessário para a cirurgia, mas tem uma avaliação da coagulação que não é pedida, exceto quando se pensa em cirurgia. O raio X do tórax serve para a avaliação do cardiologista, que precisa me dar o risco cirúrgico. O risco cirúrgico é um enquadramento da sua pessoa numa tabela que um cara inventou. Nunca se deixa de ter risco, só que ele varia de um a quatro (neste não se pode operar), de acordo com os problemas de saúde que a pessoa tem ou que foram detectados nestes exames. Só posso ir ao cardiologista quando tiver em mãos o coagulograma, porque o resto eu já tenho.

Preciso muito saber da recuperação. Vivo um dilema: não quero perder minhas férias fazendo cirurgia, mas não quero ir operada recentemente para o trabalho. O que fazer? A Dra. Andréa disse que com três a seis dias ela já pode tirar os pontos. Estranhei, sempre ouvi falar que os pontos são tirados com sete a 14 dias, mas ela disse que a pele da região dos olhos é muito fina e cicatriza muito rápido. E que depois dos pontos retirados eu já poderia usar um corretivo. O prazo de cinco dias então estaria ótimo para eu ficar em casa. Uns filmes, uns CDs, Adriane viria um dia inteiro (risadas atrapalham?), joguinhos eletrônicos, cinco dias passam muito rápido. Se eu escolher um feriadão, dá tempo tranquilo. Não vou colocar no alto-falante que vou operar, mas também não precisa ser um segredo de estado. Tenho uma pintinha perto do olho, que deve sair com a cirurgia da pálpebra inferior. Qualquer coisa, eu uso este argumento ridículo. Tem um feriado daqui a uns dias, quem sabe?

Quanto às complicações, sempre tem chance de alguma acontecer. Infecções, sangramentos, alergias, tudo isso está relativamente fora do controle do médico. Relativamente porque é obvio que o material e equipe têm que obedecer a todas as normas de esterilização, os exames devem estar ok, etc., mas existe uma parte, aquela que pode te fazer ganhar na mega-sena ou ser atacado por um tubarão, que já está a cargo da vida, da sua história, do seu destino ou do que você quiser acreditar. Que tudo conspire a meu favor, porque a minha parte eu fiz: pesquisei, escolhi, fiz exames e acredito estar em boas mãos.

Falta uma coisa que ainda é da minha parte e que não me falta: bom senso. Bom senso de obedecer às recomendações da médica no pós-operatório: dormir com dois travesseiros (os olhos, operados, vão ter uma tendência a reter líquido, e a gravidade pode ajudar a não acumular muito líquido nesta região), não abaixar a cabeça nos primeiros dias nem ficar nervosa ou fazer força, nada que faça a pressão arterial subir e poder descolar algum coágulo que já havia se formado e sangrar novamente, desta vez por dentro da pele, condição chamada hematoma, que precisa muitas vezes de uma nova abordagem em centro cirúrgico. Nada de exercícios físicos desses que me deixam vermelha, e vou até evitar alimentos que me prendam o intestino. Única situação em que me imagino fazendo força no pós-operatório. Adoro que me expliquem as coisas. Quando entendemos os motivos, os porquês, conseguimos aderir a práticas antes consideradas chatas.

Não sei nada de medicina, mas penso, e é muito fácil para eu entender e aceitar e colaborar se sei o motivo de uma recomendação. Acho que todo estudante que pretende ser médico que atende pessoas deveria ser informado que ele primeiro tem que ser professor, gostar de explicar, dar educação e sentido a atitudes que são contra o que se pensa.

Escolhi o sofá da sala para passar as duas primeiras noites após a cirurgia. Tem uma mesinha com tampo de vidro bem pertinho, e fica fácil de colocar uma vasilha cheia de gelo para eu manter o soro fisiológico gelado para esfriar as compressas de gaze que eu terei que ficar trocando. Dá para dormir tranquilamente lá, a televisão é maior, é mais perto da cozinha, onde fica o gelo, e passa rápido, nem vai dar tempo do meu corpinho deixar a espuma do sofá marcada. Um dia durmo olhando para a cozinha, outro dia durmo olhando para a janela. Vou fazer isso rigorosamente o tempo todo enquanto eu aguentar nas primeiras horas e quando me der vontade no dia seguinte. Eu propriamente não, não sei se vou aguentar fazer tudo sozinha. Devo pedir a alguém para ficar comigo nas primeiras 24 horas. Tem também os remédios que terei que tomar e um gel para colocar dentro dos olhos, quando for dormir. Os olhos incham tanto que posso não conseguir fechá-los completamente, como aquela lembrança da infância, e preciso colocar esse gel para impedir que o olho resseque. Mas isso passa, a doutora me garantiu.

Cheguei em casa com aquelas informações, aquele monte de papel, aquela dúvida. Se existisse uma balança, ficaria de um lado minha vontade de melhorar o aspecto dos meus olhos e do outro a insegurança em submeter meu corpo a uma agressão física (cortes e hematomas são cortes e hematomas, intencionalmente ou não) voluntariamente. Há uns anos  eu responderia rapidinho: melhor ficar assim mesmo, e o assunto sairia da minha cabeça rápido como quem troca de roupa. Mas ultimamente, não. Penso muito nisso, penso direto nisso, analiso as pálpebras de qualquer pessoa, e o lado da balança mais leve com certeza é o lado do medo e da insegurança. Vou fazer mesmo. Decidi. Não é barato, concordo. Mas é um investimento em mim mesma, para sempre, tipo tatuagem. Valerá a pena já por tentar. Sei que ainda vou continuar envelhecendo, não vai resolver tudo, mas é um passo que terei dado para cuidar de mim.

Dividir com quem minha decisão?  Tinha que escolher bem a pessoa a me ouvir. Quando eu era criança e tinha dúvida sobre o que escolher, eu recorria ao uni-duni-tê. O resultado da brincadeira só valia quando coincidia com minha vontade. Podia não valer porque comecei do lado errado, porque não obedeci à batida da mão com as sílabas, as regras não eram claras. Até que finalmente era isso mesmo, e estava decidido. Neste caso é meio parecido. Vou escolher alguém para conversar que eu tenha certeza que vá me apoiar. Adriane não serve, apesar de ser minha melhor amiga, já falei os motivos. Minha vizinha de esteira na academia também não serve. Difícil pensar numa parte do seu corpo que não tenha um toque de cânula (ela chama de varinha mágica, e eu sorrio nervosa) ou de silicone. Só não mexeu nos olhos ainda porque tem só 22 anos. Ela concordaria, com certeza. Difícil seria explicar para ela que não vou ao cirurgião dela de jeito nenhum. Apesar de ele ter feito um trabalho legal, nada me convence de que ele não tenta ganhar as pacientes quando faz um cafuné no pescoço quando se despede de todas, inclusive de mim num dia que fui buscá-la depois de uma sessão de drenagem linfática. Foi a terceira lipo que ele havia feito nela. Mariana sabe tudo de plástica. Já fez essas que eu sei e já me falou que tem lista de várias que ainda quer fazer. Diz ela que acorda de uma anestesia pensando na próxima plástica que fará. Esse uni-duni-tê já estaria ganho. Preciso de uma opinião menos parcial, de um homem.

Dr. Rodolfo era meu velho conhecido. Ia lá na empresa fazer avaliação de todos os funcionários nos exames periódicos. Nunca entendi como uma pessoa tão talentosa e articulada fazia um trabalho tão repetitivo. Ver funcionários um por um, auscultar, examinar quem não tem queixas, preencher fichas e responder burocraticamente, que chatice. E não era um pensamento equivocado. Apesar de ele fazer tudo de maneira muito bem-humorada e educada, tinha alguma coisa estranha naquela pessoa naquela função. O salário deveria ser uma fortuna para justificar tanto talento mal-aproveitado. Fiquei de conversar com ele um dia e descobri tudo. Adoro quando minhas percepções estão certas. Ele é oftalmologista de formação e desistiu da especialidade depois que ele mesmo teve um problema sério nos olhos. Adorava fazer cirurgias oftalmológicas, mas teve uma doença que impediu que ele tivesse a precisão necessária para a segurança em realizar cirurgias. Sublimou tendo um bom emprego e criando uma ONG para alertar médicos das doenças que eles mesmos sabem ser evitáveis e que não evitam.

Tinha que levar meus exames periódicos para ele ver, boa desculpa para o assunto. Marquei logo cedinho, horário em que minhas bolsas estão mais presentes que nunca. Exames na mão, incluí também o risco cirúrgico (grau 1). Ele viu os exames, digitava os resultados, e disse: Vai operar os olhos? Que bom! Vai ser muito bom para você! Por cinco segundos me perguntei como ele tinha adivinhado. Acho que nesses momentos todos ficamos com cara de idiota. Mas me lembrei de que no papel amarelo do receituário do cardiologista, abaixo do meu nome, ele havia escrito: cirurgia proposta – blefaroplastia. Ufa! Não estava tão na cara assim, não foi uma indicação. Nem perguntei mais nada, poderia estragar meu uni-duni-tê de resultado perfeito. Nunca saí de um exame periódico tão feliz!!!

Qual seria um enxoval para esta cirurgia? A receita médica, que eu vou pedir na farmácia assim que chegar em casa, e uns óculos maravilhosamente enormes e pretos, para ninguém ver as janelas roxas e inchadas da minha alma.

Não costumava me desfazer das peças clássicas da moda que eu possuía. Não conte para ninguém, mas eu tenho peças vintage que comprei quando não eram vintage!!! Óculos enormes, óculos gatinha, aviador, tenho quase tudo que já se usou. Adriane diz que eu sou neurótica em arrumação, mas é essa neurose (que eu chamo de cuidado e carinho com todos os óculos que eu comprei e ganhei ao longo de 25 anos) que me permite escolher agora qual é o melhor para eu usar neste momento ímpar. Em cima da prateleira dos sapatos, no meu pequeno closet, adaptei uma peça de organizar calcinhas como meu porta-óculos. É uma lona com um acabamento delicado dividida em compartimentos. Todos os óculos ficam dentro da sua caixa original, em pé para organizar o espaço e caber mais e mais… Se encontro um arranhão nos óculos, já não os uso. Mas guardo. Fica como um cemitério: aqui jaz um ray-ban que me custou os olhos da cara arranhado por uma lixa de unha de 50 centavos. Momentos em que o valor é totalmente relativo. Pedra/papel/tesoura.  Aqui jazem uns óculos vermelhos iguais aos do cara da Blitz. Ainda valerão uma fortuna quando souberem que foram meus.

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Olhar 43 – Segundo capítulo

Crédito: Image courtesy of imagerymajestic at FreeDigitalPhotos.net

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Liguei o computador e procurei respostas. Não fui para a página do site de maquiagens miraculosas, mas digitei no Google a palavra blefaroplastia. Tinha anotado o nome direitinho porque não é comum. Um primo que fazia medicina uma vez me explicou que metade de um assunto médico você decifra sabendo decompor a palavra. Blefaro significa pálpebra, e plastia significa conserto, plástica, melhoria estética. Então blefaroplastia significa cirurgia plástica nas pálpebras. É sobre isso que quero saber. Tenho muitas dúvidas. Será que preciso mesmo? Vai mudar minha fisionomia? Vou ficar mais feliz depois disso? Minhas maquiagens vão ser valorizadas? Fora a parte prática, de como é a cirurgia, quantos dias demorou para voltar ao trabalho… Essas só o cirurgião poderá me responder.

Descobri que quem está habilitado a fazer esse tipo de cirurgia é mesmo o cirurgião plástico.

Alguns oftalmologistas também fazem, em menor frequência.

Não há uma idade mínima para realização do procedimento, desde que a indicação esteja correta.

O que indica a cirurgia na maior parte das vezes é o desejo do paciente.

Não realizar a cirurgia quando já há pele da pálpebra superior sobrando não prejudica o funcionamento  da visão,  mas, em alguns casos, o excesso de pele é tão grande que afeta o campo visual (dá até para medir e comprovar em um exame).

Algumas pessoas sentem um peso no olho, principalmente à noite, e até passam a enrugar mais a testa involuntariamente, para subir a sobrancelha e tentar abrir mais o olho.

Resolvi não falar para ninguém que marquei uma consulta com uma médica amiga de uma amiga minha. Ela nem me conhecia, talvez eu não falasse a verdade sobre como cheguei até lá. E se eu não gostar dela? Um dia prestei atenção no celular desta minha amiga e peguei o nome e sobrenome da Déia. (com a nova ortografia, não teria mais acento, como geleia, assembleia, etc) Ninguém se esconde mais hoje em dia. Andréa Martinez, formada em 1996, membro  da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Sempre desconfiei de títulos, mas sei que o cirurgião plástico, após aquele tempão que passa estudando, ainda tem que fazer uma prova para pertencer a esta sociedade. Isso significa bastante, ser interessado em fazer parte da sociedade que representa sua profissão, e especialidade é sinal de respeito a ela. Confirmei que ela fazia parte da sociedade desde 2001. Fiz as contas e deduzi que depois da formatura esses cirurgiões ainda estudavam mais cinco anos!

O endereço foi fácil de encontrar, e a consulta foi marcada para dali a quatro dias, por conta de uma desistência em sua agenda, lotada até daqui a trinta dias. Que sorte! Li mais um pouco sobre o assunto. Vi numa página de fofocas algumas artistas que já fizeram, e eu nem havia percebido. Anotei no celular minhas dúvidas e já fiquei pensando quanto tempo eu teria para colocar meu plano em prática.

Os trinta minutos voaram, e me lembrei da data especial. Recebi flores, beijinhos e abraços, parabéns convencionais, teve gente que até me pegou no colo! Mas, de cada dez pessoas que me cumprimentavam, duas me perguntavam baixinho se estava tudo bem mesmo, é que eu estava com uma cara de cansada… Nem fiquei triste, porque se tenho uma vantagem é que, quando escolho uma solução para um problema, ele já é considerado resolvido para mim.

A festinha surpresa não aconteceu. Meu aniversário caiu na véspera de feriado, todo mundo preocupado com o dia seguinte, quando a empresa mais trabalhava. Em dia de feriado as vendas on-line disparavam, e todo o sistema deveria estar tinindo.  Na hora do almoço minha tela ficou lotada de convites para uma comemoração na praça de alimentação. Fomos pontuais para pegar uma mesa grande, que coubesse 12 pessoas. Oito mulheres, incluindo eu, e quatro homens. As pessoas eram só olhos e pálpebras para mim. Torci para que ninguém percebesse meus olhos de lince em cima dos olhos dos outros. Queria saber se era um problema só meu. Mas não era. A turma que me acompanhava era mais ou menos da minha idade, numa variação de uns cinco anos para cima e para baixo. De mais velha, só a Laura, uns doze anos a mais que nós e, por contradição, a última a chegar à empresa. Laura fazia o tipo resolvido, trocou um casamento e filhos adultos por um curso de mídias sociais e estava encarregada de responder os tuítes malcriados de clientes insatisfeitos. Um pouco de maturidade para lidar com insatisfações e um espírito moderno. Ela transformou o medo do analfabetismo tecnológico em exercício para sua inteligência. E funcionou. Foi a melhor aluna do curso de mídias sociais, e o certificado de melhor resultado no aproveitamento foi emoldurado e pendurado no seu home office, ao lado do diploma amarelado da faculdade de comunicação, de 1982.

Para uns, a natureza é mãe, para outros é madrasta. Para Laura foi mãe generosa, com certeza. Laura viveu o glamour da vida carioca de Ipanema. Legal era ficar bronzeada, cheia de Rayto de Sol, alternado com óleo de avião. A pele ficava amarronzada por inteiro, inclusive no rosto. Contra todas as teorias dermatológicas, sua pele recuperou totalmente o estrago ao DNA feito pelos raios UVA.  Como havia parado de tomar sol há dez anos, uma série de peelings retirou as poucas manchas que o sol havia deixado. No seu código genético, não constava a palavra melasma (aquelas manchas fixas no rosto por alterações hormonais), nem envelhecimento precoce, nevus, papilomas, poros alargados. Tinha sim um visual que não negava os seus 50 e poucos anos, mas objetivamente eu não conseguia saber o que era exatamente. Só sabia de uma coisa: pelos olhos é que não era. Ou era, mas eu não identificava nela o mesmo problema que tinha nos meus. Seus olhos eram fundos, quase encovados, e o excesso de pele ficava armazenado atrás do seu globo ocular quando ela abria os olhos. Parece que até faltava um acolchoado, mas o capricho com a maquiagem dava para observar com facilidade, e eu até podia ver que ela tinha passado um tom esverdeado mais próximo da linha ciliar na porção superior, mais escura.

Cheguei à conclusão de que essa história de idade não era necessariamente um requisito ou impedimento para a realização da cirurgia. Eu sei o que me incomoda e até tenho uma pista do que resolveria, cabe ao cirurgião plástico me esclarecer se o que ele tem a me oferecer vai ao encontro dos meus objetivos.

Os olhos da Renata, mais nova que eu três anos, por sua vez me lembravam dos meus. Meu lado egoísta ficou feliz em saber que alguém com menos idade tinha também o que eu agora considerava problema. Talvez Renata não tenha nem percebido ou ainda ache bonito. Seu filho de oito anos tem os olhos iguais aos seus. Que coisa linda esses olhos empapuçadinhos!!! Espera para ver depois! Renata se parece muito com o pai, que também tem esses olhos. Tomara que ela não se incomode tão cedo! Deve ser difícil priorizar uma solução tão radical quanto uma cirurgia quando se tem filhos, marido, além de você mesma e suas dúvidas.

Se eu disser para minha melhor amiga que quero fazer isso, já sei o que vou ouvir. Está louca? Vai ficar cega! Vai ficar com os olhos arregalados! Não mexe no que funciona perfeito! Não conta comigo! E por aí vai… Depois que eu decidir e fizer, é ela quem vai estar primeiro no hospital. Seu mau humor vai desaparecer como se ela se transformasse em outra pessoa, e, ainda com os olhos roxos e assustadores, sei que vou ouvir: até que ficou legal! Adriane é assim, eu já conheço. Morre de medo de hospital e cirurgia desde que uma sobrinha foi fazer uma artroscopia no joelho e teve uma embolia pulmonar aos 18 anos. Acha que se podemos morrer a qualquer momento, como quem cai de um precipício, por que chegar à beirada do despenhadeiro? Mesmo eu argumentando que a vista na beirada talvez seja mais ampla e encantadora, ela prefere ficar no meio mesmo.

A consulta finalmente chegou. Arrumei-me bem, sem ostentar. Não sei como é a cabeça desse povo, pode decidir me cobrar mais caro só porque eu uso minha bolsa LV… Nem passei maquiagem. Além de estar desanimada com elas ultimamente, queria que a médica me visse ao natural. Ainda bem que a consulta era cedo e minhas bolsas de gordura ainda estariam presentes. Ou eu me acostumo com elas durante o dia ou elas diminuem depois do almoço, já notei. Será que isso atrapalharia a avaliação da doutora?

Na sala de espera, muito bem limpa e bem decorada, conferi no meu celular se as perguntas que eu tinha registrado estavam de fácil acesso. Quem sabe, se eu decorasse, nem precisava recorrer a ele? Mas de qualquer maneira iria conferir. Sempre que eu vou a um médico, ainda mais particular, saio com dúvidas em relação ao que eu queria saber, por inibição ou esquecimento. Já na saída

lembro que não perguntei o que eu mais queria saber… Mas agora estou escolada, isso não vai acontecer, está tudo anotado.

A doutora era amável e confiante. Gostei. Ouviu minhas queixas, me examinou e me explicou algumas coisas, que eu até já sabia, mas paguei para ouvir.

Ela começou me explicando que ao redor dos nossos olhos existem bolsas de gordura desde nossa formação embrionária. Essas bolsas serviriam para acolchoar o globo ocular. Eles chamam de bolsas de gordura uns cachinhos de conteúdo amarelo, lembrando muito uma gordura que a gente vê na galinha .

Já o desenho do nosso olho, a posição que ele ocupa dentro do nosso crânio, a quantidade de pele que compõe a pálpebra, tudo isso tem determinação genética. É determinação genética também o que acontece com essas bolsas e com a pele quando vamos envelhecendo. À medida que o tempo passa e o nosso colágeno vai diminuindo, as estruturas da face podem ficar mais soltas, deslocando as bolsas para fora, aumentando-as e dando um aspecto desgracioso. Sem contar que essa região é toda molinha, tem um tecido conectivo frouxo, ou seja, é permeável e acumula líquido muito facilmente. É por isso, que quando a gente chora, fica inchado todo o olho, por exemplo.

Engraçado como me sinto ignorante certas horas. Eu jurava que as lágrimas se formavam por ali, fabricadas por pequenas glândulas (não uma só – glândula lacrimal), e que, quando a gente chorava, ficavam inchadas de tanto trabalhar. Mas ela também me explicou que não. A glândula lacrimal é uma só, parece uma ameixa pequena e fica dentro do crânio, abaixo da pontinha da sobrancelha. Em poucos casos ela interfere na estética ocular. Existe uma situação em que ela se desloca para baixo, chamada de ptose da glândula, e é um perigo ser lesada nesses casos por profissionais inexperientes ou que não atentem para a possibilidade de ser a glândula que desceu, e não gordura.

Voltando às bolsinhas de gordura, elas não se distribuem uniformemente em cima e embaixo do olho. Em cima nós temos duas, e embaixo temos três. Bate direitinho com o que eu observo. Tem gente que o inchaço fica até a lateral do olho, embaixo, e tem gente que não, fica inchadinho só no meio. As bolsas podem crescer irregularmente.

Quanto à pele da pálpebra superior, ela sempre deve sobrar um pouquinho. Isso eu já sabia. Quando eu era criança escutava uma estória assustadora de uma vizinha que tinha feito plástica nos olhos e que não conseguia dormir de olhos fechados. Numa época até ria sozinha dessa mulher, pensando que ela ficava igual àquela menina do filme de terror. Concluí que a gente precisa de uma folga de pele, até os bebês nascem com ela! O comportamento desta pele vai se dando conforme a genética. Se sobra para fora, se sobra para dentro, tudo depende de como ela veio programada para envelhecer.

Fora aquelas recomendações a que todos estamos habituados, como não tomar sol em excesso, se alimentar e dormir bem, manter a pele hidratada, não há nada que possa influenciar o curso do envelhecimento desta pele.

Falando nisso, uma vez fui fazer depilação numa loja nova que abriu perto do meu trabalho. Todas as desculpas que eu tinha para não ir lá já não valiam mais. Inconscientemente eu sempre arrumo outra coisa para fazer ou um compromisso importantíssimo e inadiável naquela horinha do almoço em que eu já posso fazer a depilação. Só nós, mulheres, é que sabemos que quem diz que não dói está mentindo, disfarçando. Dói demais!!! Somente quando a situação está gravíssima eu me rendo a este cuidado de higiene e estética. Mas então eu pedi meu serviço, eram três áreas. De repente a pergunta mais difícil de recusar. Para quem faz três serviços, tem mais um grátis, você quer fazer? Claro que quero, é de qual local? Da sobrancelha, a gente tem uma cera nova, quente, que ainda por cima hidrata a pele. Hidrata? Quero sim. Quando cheguei ao escritório, fiquei muito arrependida de ter aceitado. Primeiro senti que tenho mania de aceitar coisas só porque são brinde ou de graça. Um dia estava no shopping e fui a única a aceitar uma borrifada de perfume dessas meninas que ficam na porta da loja. Desviei do meu caminho só para atender ao seu convite sorridente. O detalhe é que eu já estava perfumada, o que fiz em casa, numa borrifada generosa do meu perfume preferido. Imagina como ficou a mistura de cheiros: um horror. Além de ter estragado o cheiro que eu adoro e que já está quase acabando, nem sei se o perfume novo é bom. Ficou tudo misturado.

Olhar 43 – Primeiro capítulo

 

 

Crédito: Image courtesy of stockimages at FreeDigitalPhotos.net

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Para quem não acreditava em coincidências, aquela música tão velha tocar logo naquele dia era um desafio mental. Quem foi o sacana que ligou para a rádio e disse que eu colocava o despertador naquela estação todos os dias às 6h da manhã? Só podia ser alguém muito íntimo, alguém que há 22 anos me acompanhava nas discotecas e também dançava o “Olhar 43” com o RPM de Paulo Ricardo e Cia. Alguém que me considerava, de certa forma, por se dar ao trabalho de ligar para a rádio e coisa e tal, além de ter que acordar também tão cedo para conferir se o pedido foi atendido. Seria uma amiga querida, ironicamente me lembrando da data que esperava desde há 20 anos? Seria uma qualquer invejosa, um pouco mais nova, que me jogava na cara a nova idade, aos 15 anos imaginada como inatingível? A melhor hipótese, infelizmente menos provável, era de que um amor antigo se lembrasse de como eu gostava desta música e de que fiz juras de dançá-la novamente no dia de hoje, mesmo que sozinha, comemorando a chegada dos meus 43 anos.

Decidi ficar na cama mais um pouco e pensar nos domingos à noite, naquele clube, naquelas luzes e nesse cara que eu nem me lembro bem se existiu. Mas fantasias são para isso, serem confeitadas, criadas, descobertas e, quando for o momento, docemente destruídas. Neste caso, pelo alarme tocado no apartamento vizinho, que por algum motivo era atrasado uns quatro minutos do meu, tempo exato da música acabar e a campainha de um despertador barato, alta e enjoada, invadir a minha janela, no andar de cima. Não fosse a música e suas lembranças, que já me presentearam com aquela alegria que só a gente se dá, o mau humor seria certo. Hoje, aos 43 anos, tudo o que vivi de decisivo na minha vida aconteceu depois desses anos 80…

Levantei devagar, ainda estava um pouco escuro. O caminho curto da cama ao corredor e do corredor ao banheiro estava impregnado em alguma parte do meu sistema piramidal. Cinco passos para frente, dois à esquerda e novamente dois à direita. Podia fazê-lo de olhos fechados, sem nenhuma surpresa. A mão esquerda já estava treinada em afastar-me do batente da porta no terceiro passo inicial, após três batidas de cabeça que quase me custaram a vida. No banheiro, após fazer xixi, levantei para lavar as mãos e o rosto. Ultimamente tentava nem acender a luz. Nem as manobras menos sutis de disfarce da minha fisionomia ao acordar melhoravam minha satisfação com a minha aparência. Iludi-me durante alguns meses, achando que os problemas cotidianos haviam me deixado alguns cabelos brancos, umas rugas ao redor dos olhos, uma perda do brilho no olhar, mas esses problemas cotidianos tinham nome e número: 1970, ano em que eu nasci. Um número cada vez mais longe nos preenchimentos automáticos nas páginas da web. É para facilitar ou para humilhar? Sabe quando temos que encontrar o ano em que nascemos para preencher algum cadastro? Se você tem que rolar o cursor para além do que está exposto, considere-se velho. Sempre tive orgulho de ter nascido em 1970.  Além das contas sobre minha idade serem facílimas de fazer, foi o ano do Tricampeonato do Brasil na Copa do Mundo. Sabem quem se lembra e se importa com isso hoje em dia? Eu e meu tio Jardel.

A data merecia uma produção especial. Um vestido novo, o salto alto e uma maquiagem dois graus acima do básico: rímel e delineador. Sempre dava um toque especial, ficava diferente o olhar. Evitava usar ultimamente porque à tarde sempre tomava um susto ao me olhar no espelho. Nem as marcas mais famosas nem as mais baratas seguravam o rímel no lugar onde ele deveria ficar: nos cílios. Uma camada cinza ficava grudada na pálpebra inferior, e o arrependimento era certo. Ao tentar tirar a cor escurecida, eu removia também a base e o corretivo, e o desastre se instalava.

Mas hoje eu vou estrear um delineador à prova d’água e um rímel que dura três dias. O que me importa se não vai sair nunca mais? Ou, se quando eu tirar, acontecer de ficar sem cílios? Porque o delineador até sai, desde que você arranque o cílio pela raiz.  Isso não diz na embalagem, mas ela não mente ao dizer que o rímel é ultrafixante. E eu nunca ouvi falar que solvente de tinta possa ser usado na área dos olhos… Mas hoje meu vestido marrom pedia uma sombra dourada em dois tons (de leve, nada muito brilhante), um delineador discreto e depois o rímel.

Estava cada dia mais difícil perceberem a sombra em duas cores que eu colocava. Ninguém via nem que eu estava de sombra. A pele da pálpebra superior sobra, atinge o bordo, junto da raiz dos cílios. Mas tudo bem, minha estratégia de colocar sombra em dois tons diferentes havia mudado de sentido, agora coloco uma mais clara no meio e a mais escura na lateral. Nada de mais escura em cima e mais clara embaixo. Isso era perda de tempo, e de sombra.

Chegou a hora do delineador. Inclinei a cabeça um pouco para trás, para continuar a ver mesmo estando com os olhos fechados. Sem esta manobra ficava um pouco difícil enxergar a linha acima dos cílios onde o delineador deveria desenhar um risco fino e preciso. A pele já encostava lá. Bingo! Ficou lindo, um poema. Lado direito, lado esquerdo, cabeça para trás, 15 segundos para secar, posição normal. Ótimo. Agora o rímel, aquele de três dias. Só nas pontinhas, para ficar natural. Que lindo! São os milagres da interação eu-espelho-movimentos inconscientes-luzes-queimadas-da-penteadeira  que disfarçam as imperfeições. Minha auto imagem só não resiste a fotografias estas, sim, cheias de defeito.

Coloquei os cremes, vestido, perfume, sapatilha (o salto vai na sacolinha, na garagem do escritório eu calço), bolsa e uma nécessaire mais pesadinha que o habitual. Na verdade, levei quase tudo que eu tinha de maquiagem caso descobrisse uma festa surpresa uns 30 minutos antes de ela começar. Outro confeito no bolo de fantasias que eu providenciei para mim hoje: o vestido que escolhi ficava entre o meio termo de todo mundo nem perceber e de todo mundo me elogiar. Levar outra roupa ia pegar mal, dar muito na pinta que eu desejava uma comemoração. . O vestido que escolhi ficava entre o meio termo de todo mundo nem perceber e de todo mundo me elogiar.  A caminho do trabalho, o confere final  é no elevador. Tão cedo é garantido de eu descer sozinha, nada de caronas para estragar a última ajeitada no cabelo neste espelho enorme.

Dois elevadores, um com espelho e o outro não. Apesar do elevador social, com espelho, me deixar no térreo e eu ter que descer dois lances de escada, sempre prefiro ele. Alguns dias vou no outro mesmo, nem quero conferir nada, nem me olhar direito,  mas hoje eu me sinto tão bem…

Quando entrei no elevador e me olhei no espelho, me desesperei. A pele que sobrava descobriu que eu fazia aniversário hoje e cresceu um pouco mais. Havia três listras de delineador na minha pálpebra superior. A pele dobrou e marcou tudo! E o delineador é à prova d’água, isto é, não sai!

Esfrega, esfrega, foi-se toda a arte da sombra. O rímel de três dias era realmente de três dias. Só que a metade dele nos cílios, e outra metade em algum lugar ao redor dos olhos.  As ruguinhas da pálpebra inferior foram preenchidas pelo rímel de três dias, e a almofadinha que insistia em aparecer ali quando eu acordava quis também comemorar meu aniversário e estava enorme. Bola pra frente, já estava quase atrasada, resolveria tudo isso no espelho retrovisor do carro a caminho do trabalho. Se Deus quiser, os sinais se fecharão, e eu vou ter o maior tempo do mundo para consertar todo esse estrago.

Nem preciso dizer que a onda verde me perseguiu e os 20 minutos habituais para chegar à empresa viraram 12, e nem pude insistir em parar antes do amarelo porque já ouvia buzinada. E eu detesto buzinada, sempre acho que fiz alguma coisa muito grave e nem percebi. Só demorou mesmo onde não devia demorar. Um problema na catraca do estacionamento obrigava a presença do guarda bonitão de uns vinte e poucos anos junto à cancela. Tive que abrir o vidro para mostrar minha credencial e dar bom dia àquele grande pequeno príncipe, pedra preciosa bruta, e falar amenidades até que a catraca fosse liberada manualmente. Fingi que não escutei quando ele perguntou: Muito trabalho? Está cansada? Seus olhos estão inchados… Achei melhor concordar, disse que estava muito cansada sim, que a semana tinha sido difícil. Precisava justificar o comentário dele e deixar acesa a chama da esperança: amanhã eu posso não estar tão cansada, e meus olhos voltarem a ter aquele aspecto de há 22 anos.

Cheguei mais cedo que o habitual – no relógio ainda faltavam 40 minutos para que a portaria abrisse para o público e 30 minutos para que as luzes dos outros boxes ao lado do meu se acendessem, como plim-plins dos computadores, os bons dias e o cheiro de café invadindo meu espaço e me lembrando de que mais 20 pessoas estariam do meu lado o dia inteiro.

Ali mesmo, na minha mesa, retoquei a maquiagem no que foi possível.
Com um espelho menor é ainda mais fácil de enganar a si mesma quanto à aparência. Precisava tomar uma atitude.

 

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